Por uma Igreja inclusiva

Gustavo Arnoni

Gustavo Arnoni

criança com síndrome de down sorrindo enquanto come

1 jun. de 2022

|

7 minutos de leitura

Os braços estavam doloridos, as descidas e subidas eram íngremes, e deveríamos tomar todo o cuidado para não cair no precipício ao lado. Revezamos quem o iria segurar pelos braços e quem ficaria nas pernas. O menino era pesado, mas não o suficiente para nossa amizade. O dia estava bastante quente, por isso, valeria a pena a longa trilha para depois curtirmos a cachoeira. Nós não deixaremos o nosso amigo para trás.

Quatro amigos jovens, um deles, decifiente físico. Éramos da mesma igreja, há muitos anos, e a deficiência nunca foi empecilho para vivermos todos os momentos bons da vida. Nos batizamos juntos, conversamos sobre as primeiras “paqueras”, nos desviamos da fé juntos, retornamos juntos. Sabíamos que o Ricardinho era “diferente” de nós, ao mesmo tempo, era tão igual que a deficiência dele se tornou quase nossa.

Na igreja em que crescemos, não lembro de casos concretos de exclusão. Havia ministérios de surdos, uma síndrome de down muito querida e alguns outros casos. Por fim, o próprio pastor da igreja descobriu uma distrofia muscular que o levou à cadeira de rodas. A igreja se adaptou. O palco mais alto ficou para os músicos. Criaram um mais abaixo, acessível à cadeira de rodas, para que ele pudesse subir e pregar.

A discussão sobre igreja inclusiva tomou um rumo político e nada pode ser uma perda maior para a Igreja. De um lado, o grupo que reivindica inclusão o faz às custas do fundamento da própria igreja: a palavra de Deus. A inclusão se tornou a adaptação aos discursos vigentes. O problema nisso é justamente a Igreja perder seu referencial de reino da redenção. Na redenção, aquilo que está desajustado encontra seu lugar enquanto santificado pela participação. Na adaptação do discurso, não há participação, pois não há visão de desajuste. O deficiente, por exemplo, está desajustado de viver a plenitude que a “normalidade” permite. Por isso, enquanto comunidade redentiva, a igreja propicia a ele a antecipação de todo ajuste final.

A igreja não passa, toda ela, a usar cadeiras de rodas. Pelo contrário, a igreja passa a ser as pernas para aquele que não anda e os ouvidos para aquele que não ouve. A tentação constante da política e dos discursos de identidade é imanentizar a redenção num processo de justificar a realidade tal como se apresenta, ignorando que a harmonia da criação foi comprometida no processo do pecado. E o pecado, herdado e praticado pelos mais ou menos “ajustados”, tende a sugerir que deixar as coisas como estão faz parte do processo da redenção. É a ilusão de identificar algo que está como um deve ser. Não há nada mais contra a inclusão do que isso. É impossível haver inclusão onde existe conformação de que as coisas são como deveriam ser. Qualquer possibilidade de transformação real, própria da redenção, é anulada.

Do outro lado, reagindo a essa tendência inclusivista, está o vanguardismo do medo. Qualquer coisa que sugira que a Igreja deva olhar com atenção especial para os fragilizados é identificado com discurso político progressista. “Os pobres sempre tereis convosco” é entendido como imperativo de Jesus para que se evite interferências nas realidades excluídas da vida. É um tipo de imanentização conservadora. Uns naturalizam as diferenças para a inclusão; outros naturalizam as exclusões para a conservação. A igreja que opta por essa mentalidade fica paralisada em sua ação e entrega os que precisam de voz para o grito daqueles que não crêem que a voz, a palavra e o falar de Deus são o maior poder de redenção para a humanidade.

Como ser uma igreja inclusiva?

  • Vivência

Na igreja em que cresci, o maior exemplo de inclusão que tive foi a própria vivência. O fato de existir um ou mais pessoas com necessidades especiais na comunidade prepara todo o coração da comunidade. Atualmente, toda a comunidade que fazemos parte foi impactada pela vida do nosso filho com suas necessidades especiais. Formação, teologia, envolvimento, tudo isso é muito importante, porém não substitui a rica oportunidade que Deus concede de que haja, naquela igreja, uma pessoa especial. Aos poucos, a necessidade da pessoa se torna uma face da igreja. Ela não se vê mais sem ela. Os olhares tortos, os preconceitos, a vitimização, o capacitismo, tudo vai sendo superado. E aqui, cabe uma palavra de advertência também. Às vezes a igreja não sabe lidar com pessoas especiais. Cria-se um sensacionalismo da cura, do pensamento positivo, do “vai ser curado”. Isso paralisa a igreja em lidar com a pessoa real, e frustra o deficiente para se aceitar e amar, como Cristo aceitou e amou. Evidentemente, devemos orar pela cura. Se, porém, Deus não curar, a igreja deve aceitar, lidar e viver com quem Deus ali colocou.

  • Fóruns de debates

"É impossível haver inclusão onde existe conformação de que as coisas são como deveriam ser."


A principal tarefa da igreja é a pregação da palavra de Deus. As escrituras e a pessoa de Jesus é a origem e finalidade da igreja. No entanto, a palavra de Deus sempre precisa ser aplicada a contextos e momentos reais. Sendo assim, sempre vemos grupos cristãos discutindo inúmeros temas: política, economia, saúde mental, ação social. Quantas vezes vemos um fórum cristão sobre deficiências físicas e mentais? Pouquíssimas. Na verdade, até o momento, eu não conheço nenhum. A palavra de Deus se aplica também a essas pessoas. Promover esse tipo de formação ajuda, ao menos intelectualmente, a igreja a lidar com essa realidade.

  • Ministérios

Entendo completamente as objeções que fazem à ideia de “ministério”. Algumas comunidades usam ministérios como meio de aprisionar a pessoa na igreja ou de infundir ativismo, retirando-a do convívio familiar e do tempo necessário para descanso e lazer. Essas objeções são completamente válidas. Outros podem, ademais, afirmar que a ideia de “ministérios” não é bíblica. Contudo, o serviço é bíblico. A comunicação do evangelho para todas as culturas e condições é bíblico. Nesse sentido, quanto mais uma igreja puder investir tempo e recursos para que o evangelho seja comunicado para pessoas com condições especiais, mais ele irá sinalizar o reino redentor de Cristo na sociedade, e mais ela mesmo desfrutará da multiforme graça e sabedoria de Deus.

  • Sacramentos e ordenanças

Reconheço a delicadeza desse ponto. Igrejas que batizam crianças tendem a ressaltar o aspecto inclusivo da criança fazer parte da família de Deus. As chamadas “credobatistas” ressaltam o papel da inteligência na participação do batismo. Eu respeito essas posições, mas não posso deixar de desafiar os pastores de tradição credobatista a reconsiderar o batismo, ainda que de adultos, que possuem dificuldades de expressar a fé de maneira intelectual. É claro que a fé envolve proposições, mas o amor e confiança em Cristo podem ser notados em crianças e pessoas com dificuldades cognitivas. Ainda que se considere o batismo como símbolo, não seria mais proveitoso oferecê-lo aos deficientes intelectuais, incluindo-os simbolicamente no povo de Deus, acolhendo suas famílias e ressignificando sua identidade no mundo?

  • Localidade e acessibilidade

Apesar de ser simples, nem sempre isso é considerado na escolha de um salão para a igreja se reunir. Gostamos de pensar em uma igreja próxima a pontos de ônibus ou metrô, para que as pessoas cheguem. Mas, e para as pessoas com dificuldades mínimas de acesso? Recordo-me que, assim que houve o despertar ainda mais inclusivo em minha antiga igreja, investiram em um elevador. Fraldários, elevadores, intérpretes, salas especiais (para acalmar uma criança autista, por exemplo), tudo isso faz parte do investimento para que o evangelho possa ser levado a ainda mais pessoas que carecem da graça de Deus.

  • Humildade

Parece bastante desconexo com o restante do texto, mas não é. A pessoa que mais pode falar sobre suas necessidades é a pessoa que passa por ela. A igreja, como receptáculo e transmissora do amor de Jesus, precisa estar disposta e humilde a ouvir os dilemas das pessoas reais. Mudar estruturas, mentalidades e procedimentos só é possível quando nossas toalhas de humildade estão nas mãos para enxugar os pés de nossos irmãos. Só quando a igreja sente a dor do mundo é que ela pode ser transmissora do consolo de Deus.

Igreja sinfônica

Pedro Lucas Dulci

Igreja sinfônica

R$20,90

Original: Escrito por Gustavo Arnoni

Imagem de Unsplash

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Revisão: Maurício Avoletta Júnior

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direitos, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.


Gustavo Arnoni

Gustavo Arnoni

Professor, marido da Jaquelina e pai do Enoque, uma criança rara. Formado em teologia, filosofia e pedagogia; especialista em cristianismo e política e em ensino de filosofia.


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Em Suma (Transcrição) - 19. Cristo como cultura, segundo Robert Jenson Uma mulher pelada, outra se banhando e um piquenique com dois homens vestidos conversando casualmente. Parece ter uma história aí não é? Pois é, mas é justamente isso que a pintura “O almoço na relva” de Édouard Manet não tem. E para um dos principais teólogos sistemáticos do final do século 20, o luterano Robert Jenson, que morreu em 2017, essa pintura mostra justamente o problema da cultura ocidental: a nossa cultura perdeu sua história. A igreja havia, nem sempre fielmente, edificado uma civilização baseada na narrativa da Bíblia a partir das ruínas da antiguidade pagã. Com o Iluminismo, tentou-se secularizar tal história, mas substituindo os protagonistas bíblicos, como o Deus trino e seu povo Israel, pelo homem autônomo se desenvolvendo em ordem e progresso. Bem, não deu certo isso de “contar uma história universal sem o contador de histórias universal”. E não demorou pro pessoal perceber, seja em movimentos modernistas nas artes ou em filósofos como Nietzsche ou até em eventos mundiais como as Grandes Guerras. E deu no que deu: estamos num caos niilista, uma cultura sem história, como a pintura de Manet. E o que a igreja tem que fazer agora nesse mundo pós-cristão e pós moderno? Existem muitas propostas para relacionar Cristo e cultura, como vimos no episódio anterior. O problema para Jenson é que essas propostas não percebem duas coisas. Primeiro, não percebem o que qualquer antropólogo irá lhe dizer: a própria igreja cristã já é uma cultura. Afinal, o próprio título Cristo (que significa Messias) já aponta as raízes judaicas da igreja cristã. Isso quer dizer que a igreja está em continuidade com a cultura de Israel, de modo que ela precisa cultivar essa raiz para não perder sua identidade e também quer dizer que haverá sempre um limite para o que ela poderá absorver de outras culturas na sua jornada entre o Pentecostes e o retorno de Cristo. E agora o segundo problema sobre separar Cristo e cultura, o qual só alguns bons teólogos como Agostinho poderão lhe dizer, é que na igreja está a plenitude de Cristo, a igreja é o seu corpo, ou seja, se a igreja faz parte do Cristo todo (totus Christus), então o próprio Cristo é uma cultura. Calma, isso não quer dizer que Jesus é só um ideal elevado ou que não seja uma pessoa. Na verdade, Jesus só é verdadeiramente pessoal se tiver uma história. Isso leva a um dos principais temas da obra de Robert Jenson: só podemos conhecer Deus dentro de uma história específica, como Jenson gostava de dizer: “Deus é quem quer que tenha ressuscitado Jesus dentre os mortos, tendo antes libertado Israel do Egito”. Então, Deus, que já fazia isso com Israel, seja em seus encontros com os patriarcas, no êxodo ou habitando no templo, vem ser um de nós sem deixar de ser Deus, nem israelita: Jesus Cristo, que se entregou por nós na cruz. Porém, onde ele está agora? Cadê o corpo? Como Deus sabe mexer com isso de tempo-espaço, sendo ele seu próprio tempo e espaço, Cristo pode estar tanto no céu quanto presente conosco no corpo de Cristo, a igreja. E essa história do evangelho futuro muda tudo — da nossa metafísica a nossa cultura. Bem, talvez eu te perdi aqui né. Vamos ver três exemplos de Cristo como cultura para ficar mais claro: Cristo como política; e Cristo como arte, especialmente música e drama. Antes de tudo, a política da igreja não é de direita ou de esquerda, porque na verdade ela própria já é uma política. Como Jenson diz, “uma verdadeira política seria uma área em que as pessoas estariam presentes umas às outras de forma análoga à presença mútua das pessoas divinas, engajadas no discurso sobre o bem”. Toda história de Israel envolve instituições políticas específicas em que pessoas como Moisés, os profetas e os reis que estão ao mesmo tempo com povo e com o Senhor, permitindo que a conversa aconteça. O clímax disso está no Deus-Homem Jesus que nos ensina a falar com Deus como nosso Pai e torna a igreja “um parlamento perfeitamente participativo na oração”. O que isso quer dizer na prática? Quer dizer que, “quando o governo chinês persegue cristãos, os perseguidos são instruídos por Paulo a serem leais a seus perseguidores, porque os perseguidos são na verdade soberanos sobre seus perseguidores”. Ou seja, a igreja tem autoridade real sobre os reinos deste mundo, porque seu cabeça está assentado a direita de Deus Pai Todo Poderoso. (E claro que eles não vão gostar disso). Mudando a chavinha para as artes, Cristo como arte quer dizer que a arte pode superar o debate entre realismo e vanguardismo. A arte pode levar o mundo real a sério, porque, se Cristo é arte, o artista é o Pai, o Criador de todas as coisas. O Verbo de Deus é o formato específico em que ele fez a criação, é o experimento específico de Deus com um mundo possível. Então é bom prestar atenção nisso. Por outro lado, já que a criação é um experimento livre de Deus, pois ele não precisava criar, o artista também é livre para ser criativo em seus próprios experimentos. Assim, há uma harmonia entre liberdade e realidade na arte, de modo que não caímos na rigidez da forma nem no caos da desconstrução. Falando em harmonia, a música é um ótimo exemplo disso, porque é uma arte em que participamos de um tempo específico no experimento executado pelo artista, assim como Deus tem tempo para nós na criação. Da mesma forma, como diz Jenson, “viver em Cristo é viver no movimento da grande fuga (no sentido musical) que Deus está compondo”. E essa vida de Cristo é um drama também. Cristo tem duas narrativas: a de um humano entre outros humanos — israelita, nasceu da Virgem, padeceu sob Pôncio Pilatos — e de ser Filho divino juto com o Pai e o Espírito. E a doutrina da Trindade insiste que essas narrativas são o mesmo arco dramático. É por isso que esse negócio de chamar Cristo de cultura não cai num relativismo cultural. Pensa comigo. Jenson diz que “a alma de toda cultura é uma religião e o corpo de toda religião é uma cultura”. Então, não tem isso de neutralidade religiosa numa cultura. Toda cultura conta uma narrativa. 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Por isso, numa cultura que, como a pintura de Manet, perdeu sua história, a igreja pode proclamar e viver Cristo como cultura, o destino de todas as nossas culturas. Talvez então o trabalho cultural mais relevante da igreja no Ocidente secular seja ser igreja. Talvez então, como aconteceu no fim da antiguidade pagã, o mundo e suas culturas se rendam a Cristo não por exclamar “veja como eles nos amam”, e sim “veja como eles se amam”. BIBLIOGRAFIA Robert W. Jenson. “It’s the culture”. First Things, maio de 2014. Robert W. Jenson. “How the world lost its story”. First Things, outubro de 1993. Robert W. Jenson. “Christ as culture 1: Christ as polity”. International Journal of Systematic Theology. V. 5, n.3, novembro de 2003. Robert W. Jenson. “Christ as culture 2: Christ as art”. International Journal of Systematic Theology. V. 6, n.1, janeiro de 2004. Robert W. Jenson. “Christ as culture 3: Christ as drama”. International Journal of Systematic Theology. V. 6, n.2, abril de 2004. Robert W. Jenson. “Reversals”. Christian Century, abril de 2010. Russell D. Rook. Rhyming hope and history: theology and culture in the work of Robert Jenson. Pickwick Publications, 2011.
Guilherme Cordeiro
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Quem lê bem prega bem Vinde a mim, diz Cornelius Plantinga, todos vocês, cansados e oprimidos com péssimas pregações, e eu darei minha opinião sobre o assunto. Entretanto, Plantinga não pretende falar com as vítimas das péssimas pregações, ou seja, os ouvintes. Na verdade, ele almeja falar com os ofensores, os pregadores. Plantinga, presidente emérito do Calvin Theological Seminary, escreveu um livro sobre pregação, ainda que não seja um livro sobre como desenvolver uma melhor exegese, uma melhor exposição, nem uma melhor comunicação. Reading for Preaching: the preacher in conversation with Sotrytellers, Biographers, Poets, and Journalists fala mais do tempero da carne do que da carne em si. Ao se tornarem melhores leitores de ficção, de poesia, de biografias e bons jornalistas, Plantinga argumenta que os pregadores podem enriquecer suas pregações. Ele não promete que um melhor programa de leitura tornará, automaticamente, pregadores ruins em bons pregadores, mas, “para aqueles entre nós, sem grandes dons naturais, um bom programa de leituras pode nos ajudar bastante” Um alerta contra leituras vazias Plantinga rapidamente alerta seus leitores a serem cuidadosos para não se achegarem à literatura meramente em busca de algumas boas ilustrações. Essa é uma tendência para jovens pregadores que, como nós, podem estar inclinados a se aproximarem de algum romance como se fosse uma enciclopédia de ilustrações para um sermão. Isso será, quase sempre, um processo bastante frustrante e, de maneira bastante franca, Plantinga diz que essa é uma atitude bastante perversa. Eis uma boa regra geral: se você consome literatura apenas para encontrar ilustrações para o seu sermão, você raramente as encontrará e, mais raro ainda, será o seu deleita literário. Ao invés disso, leia pro prazer e não apenas você satisfará seu desejo por beleza, como certamente encontrará algumas ilustrações. Vá direto ao coração Bons escritores de ficção, assim como bons poetas, possuem a habilidade que poucos pregadores possuem – eles sabem como fazer uma longa exposição. Pregadores, geralmente, sabem apenas como preencher o tempo restante. Essa é justamente a força do livro de Plantinga: ele nos mostra que, enquanto os bons escritores, geralmente, sabem trilhar a estrada correta até o nosso coração, os bons pregadores sabem o que fazer quando chegam lá. Um romance pode te fazer desejar outros mundos; pregadores, no entanto, sabem o que pode satisfazer esse desejo. Edgar Allan Poe nos faz sentir que a esperança não está perdida se esse mundo for, de fato, “apenas um sonho com um sonho.” O pregador, por outro lado, pode oferecer a esperança concreta de um novo mundo para quando acordarmos deste sonho. Poe também nos desperta para o fato de que somos como grãos de areia diante de um mar de sofrimento – nenhum de nós está a salvo do sofrimento. Os pregadores sabem, contudo, que Deus fez seu Filho sofrer em nosso lugar para que, um dia, estivéssemos livres deste fardo. Mesmo que o pregador não utilize ilustrações de algum romance, a linguagem literária estará presente de algum modo. Plantinga mostra como a boa retórica, assim como a boa dicção, o movimento narrativo, a economia linguística e a recapitulação passam a ser presentes em nossas pregações de maneira bastante natural. O pregador que sabe lidar com a linguagem, sabe também como direcionar os desejos. Encante seus ouvintes o máximo que puder. Uma vez que estão encantados, eles desejam adorar a Jesus. Mais à frente ele escreve o seguinte: Todo pregador deseja lançar um feitiço e, para isso, deve escolher as palavras exatas para que todos voltem para suas casas com mais desejo do que quando chegaram. 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Reading for Preaching demonstra que um bom guia de leituras pode equipar o pregador com um melhor senso de empatia. Essa não é uma verdade nova, é claro, mas tem sido debatida com maior constância. Há algum tempo, o The New York Times mostrou que, segundo alguns estudos, ler literatura ficcional pode aumentar sua empatia. Em outras palavras, boa ficção pode ajudar pastores a se colocarem no lugar de seus ouvintes. A sabedoria do púlpito, contudo, não pode derivar apenas da literatura. A literatura, na verdade, deve ser uma serva que nos auxilia a aplicar a sabedoria bíblica que pode mudar os corações. O plano de leitura Plantinga providencia uma lista de leitura bastante útil, repleta de romances, artigos, biografias e coletâneas de poesias, ao final do livro. Você pode, tranquilamente, ficar folheando o livro enquanto permanece lendo outros livros. Plantinga se utiliza de suas próprias leituras para mostrar o quão a boa leitura aprofunda o nosso desejo pela graça, nossa necessidade de redenção, nossa luta contra o pecado e a amabilidade das virtudes. Ele também providencia um plano mais simplificado para aqueles com um ministério mais atarefado: leia, em uma ano, um grande romance, uma biografia, um quinto de um livro de poesias de um mesmo poeta e consulte semanalmente os principais canais de notícias, para se inteirar daquilo que os jornalistas tem falado. Se, por algum motivo, você não gostar da lista sugerida pelo autor, existem sites, como o The Greatest Books, que fazem uma seleção de grandes livros, todos selecionados pelos prêmios que ganharam; há também uma lista de best-sellers, o que te permitirá selecionar suas leituras de forma mais pessoal. O diabo é a virtude Esse livro é ótimo e eu o li quase todo em um única sentada. Marquei ele do começo ao fim e voltarei a fazê-lo mais algumas vezes. Eu sugeriria Reading for Preaching para qualquer pregador, especialmente os mais novos. Entretanto, ele é também um livro perigoso e penso que, especialmente, para os pregadores mais novos. As mesmas ferramentas sugeridas por Plantinga para pregar o evangelho e levar a Igreja à adoração, podem também ser utilizadas para manipulação. Arrogância e orgulho podem, travestidos de sabedoria e graça, se tornarem frutos deste livro. Enquanto o concelho de Plantinga se dirige à finalidade de evidenciar como a boa leitura pode auxiliar na exposição da graça do evangelho e da beleza de Cristo, ele pode facilmente ser ignorado por um coração arrogante que almeja ser maior do que, de fato, é. A Igreja não precisa de um pastor literário, mas de um bom pastor.
John Starke
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Vida cristã
Em busca de uma liderança irrelevante Meu coração estremece com as notícias de encobrimento de imoralidade por parte de pastores, celebridades e, em alguns casos, denominações inteiras. Não apenas raiva e tristeza tomam conta de mim, mas também medo. Começo a me questionar: E se fosse eu a agir assim? Não como vítima, mas como aquela que ignora a imoralidade. Será possível que meu coração um dia fique tão cauterizado a ponto de eu ignorar o mal, desejando apenas que a roda continue a girar e minha igreja ou nome não sejam expostos? Será que um dia me importarei mais com minha imagem do que com o Evangelho de Cristo? Sinto medo, pois sei que isso é possível. Sei que meu coração é mau e, sem a devida manutenção divina, ele pode endurecer e até apodrecer. “Nunca farei isso!”, dizemos nós, até que o prestígio bata na nossa porta nos cobrando algum preço. Talvez a resposta para isso esteja numa liderança cristã contracultural. Quando escolhi a dedo o livro O perfil do líder cristão do século XXI na biblioteca, não sabia o impacto que causaria em mim, especialmente nesse momento. Henri Nouwen teve suas obras traduzidas para mais de 35 línguas. Em sua última década de vida, Nouwen, que era padre holandês, abandonou as aulas que ministrava nas universidades de Yale, Harvard e Notre Dame para ser capelão de pessoas com deficiência intelectual na Comunidade Amanhecer (Daybreak), uma comunidade de L'Arche em Toronto. Esse livro conta brevemente as lições adquiridas desse novo momento de vida. Nouwen relata que, após 25 anos de ministério, sentia que algo não ia bem: (...) descobri que tinha uma vida pobre de oração, que vivia um tanto isoladamente das outras pessoas (...). Todos diziam que eu realmente estava agindo muito bem, mas alguma coisa dentro de mim me dizia que o meu sucesso colocava minha alma em perigo”. Para ajudá-lo a fugir desse lugar escuro, Deus lhe dera a direção de ir para L’Arche. Como disse o fundador das comunidades: “Vá e viva entre os pobres de espírito, e eles o curarão. Nouwen sentiu que sua vida começava novamente, pois suas habilidades adquiridas até então pareciam inúteis ali. Os acolhidos pouco se importavam com sua reputação e contatos: Estas pessoas (...) feridas e completamente despretensiosas me forçaram a abandonar o meu ego relevante, o ego que pode realizar coisas, mostrar coisas, provar coisas e construir coisas. A forma de trabalho em equipe da capelania era muito diferente da individualidade da qual estava acostumado. Os acolhidos também falavam o que bem pensavam, sem enfeites ou rodeios, e não podiam ser convencidos com “belas palavras”. A partir disso, Nouwen reflete sobre o que é ser um líder cristão em nosso tempo. Como disse Jesus: Quando você era mais jovem, vestia-se e ia para onde queria; mas quando for velho, estenderá as mãos e outra pessoa o vestirá e o levará para onde você não deseja ir (João 21:18) Para Nouwen, o mundo diz que em nossa juventude não podíamos fazer nossas escolhas, mas quando crescemos nos tornamos independentes. Já quando amadurecemos como cristãos, devemos ter disposição para irmos onde não queremos. Somos líderes-servos, sendo levados a lugares desconfortáveis. Enquanto o líder do mundo busca ascender e ser relevante, o líder cristão busca o caminho descendente: a cruz. Enquanto o líder do mundo busca habitar os holofotes, o líder cristão deve buscar “habitar na presença daquele que sempre está nos perguntando: ‘Você me ama? Você me ama? Você me ama?’”. O líder do mundo busca crescer sozinho, mas o líder cristão vive em comunidade: Assim como os futuros líderes devem buscar o sobrenatural (...), eles também devem estar sempre dispostos a confessar a sua fragilidade e a pedir perdão daqueles a quem ministram. Como nos mostra Henri Nouwen, o caminho relevante do cristão é inverso e contracultural. Enquanto eu - pelo poder do Espírito Santo - imitar aquele não veio ser servido, mas servir, manterei a salvo meu coração das tentações do poder. Com os olhos em Cristo, fugirei da cauterização do coração.
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