O protesto estético: do rock à ressurreição

Bruno Maroni

Bruno Maroni

show de rock

13 jul. de 2022

|

4 minutos de leitura

Dia 13 de julho é considerado o dia do rock. Além da data comemorativa em homenagem a um dos movimentos culturais mais influentes da história, fico pensando sobre as relações entre o rock e a fé cristã. Não penso aqui nas comparações óbvias, mas na tentativa de perceber os traços de beleza e graça entremeados em uma tortuosa história de sexo e drogas.

Apesar de todos os ídolos que percorrem essa história, o rock ressoa muito mais da ressurreição de Cristo do que das artimanhas do diabo.

Se na década de 50 o rótulo de “música jovem” era estampado sobre os primeiros artistas do gênero, carregando o estigma de má influência para a juventude, em poucos anos - já com o peso de um entretenimento altamente lucrativo - o rock assumiu em definitivo o status de “arte”. Isso lá na época do Pet Sounds dos Beach Boys e do Sargent Pepper’s Lonely Heart Club Band dos The Beatles (1967), sabe? Quando aqui no Brasil o tropicalismo empreendeu uma música requintada, audaciosa. Já não era só mais um sucesso massivo, mas uma influência estética e cultural.

Independentemente das escolhas estéticas e temáticas dos mais diferentes artistas e bandas de rock com seus milhares de subgêneros, um fio condutor da visão de vida que ele encena é a atitude de protesto. Era um aspecto latente desde os primeiros nomes que migravam do blues e do country e se estende até hoje entre milhares de inconformados criativos.

Protesto certamente incendiado por uma fagulha insistente de inconformismo e insatisfação. Um recorrente protesto contra a segregação e a injustiça social, as guerras, a opressão política, a corrupção do show business, ou contra o vazio existencial, a desilusão amorosa e angustiante escassez de sentido de um mundo com cada vez mais progresso e cada vez menos beleza.

De certa forma toda expressão de arte é um modo de protesto. Não é necessário empunhar uma guitarra, gritar visceralmente ou cerrar os punhos para contestar algo ou alguém. A erudição de Bach já era um tipo de protesto, bem como as pinceladas coloridas de Van Gogh ou o cinema contemplativo de Terrence Malick. Pois é: um artista não precisa ser um Joe Strummer, um Eddie Vedder e nem um Renato Russo ou Cazuza para protestar. O protesto também está no silêncio e na sutileza. Não por acaso o folk sereno de Bob Dylan já assumia o selo de “música de protesto”.


"Vai ter rock na Nova Jerusalém? Quem sabe? Quem precisa saber? O que se crê é que toda arte, criatividade e cultura não é inútil, mas tem valor eterno."


O protesto nunca foi algo estranho aos profetas de Judá e Israel. Pelo contrário: estranhas eram as metáforas e performances que eles empregavam para anunciar juízo e misericórdia. No fim, o rock é só uma potente e pequena amostra de uma vocação inevitável em um mundo em que as coisas não são como deveriam ser, onde tudo está fora do lugar, com o coração invertido.

Nas vozes dos profetas podemos ouvir uma raiva e uma condenação que nos lembra a música de protesto dos anos 1960, o punk rock dos anos 1970 e o rap de hoje. Essa música forçou a sociedade a enfrentar fatos desagradáveis sobre seu comportamento. – Steve Turner

Acontece que o protesto mais radical - a máxima afirmação de que “não deveria ser assim!” - não está nos palcos dos festivais, mas no túmulo vazio de um jardim palestino. Não está empilhado nos arquivos do rock, mas no cânon do drama das Escrituras.

A ressurreição de Jesus, o auge dramático da redenção que inaugura a Nova Criação, é um protesto artístico pois devolve a beleza à um cenário quebrado; pois intensifica nossos anseios e contesta a morte. A ressurreição nos desafia a uma imaginação resplandecente. O vislumbre esperançoso pelo que há de vir, mas o incômodo vigoroso com o que ainda estreita a vida. A ressurreição reencanta e desencanta ao mesmo tempo: desencanta para o que não deveria ser e reencanta para a beleza do que um dia será.

A arte, em sua melhor expressão, não somente chama a atenção para a realidade atual, mas aponta também para o futuro , quando a terra se encherá do conhecimento de Deus , como as águas cobrem o mar. Esta continua sendo uma esperança surpreendente, e é bem provável que os artistas sejam os melhores a expressá-la. – N. T. Wright

Vai ter rock na Nova Jerusalém? Quem sabe? Quem precisa saber? O que se crê é que toda arte, criatividade e cultura não é inútil, mas tem valor eterno. Bem, pelo que parece o rock não acaba por aqui. Reimaginar a arte, a música e o rock pelas lentes da ressurreição e da Nova Criação muda tudo. Faz lembrar que nossos atos criativos mais ordinários podem funcionar como um protesto tão vital quanto os gritos mais rasgados do rock. Protestos estéticos espalhados pelo cotidiano reverberando a beleza da ressurreição.

Arte e Fé

Makoto Fujimura

Arte e Fé

R$34,90

Original: Escrito por Bruno Maroni

Imagem de Unsplash

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Revisão: Maurício Avoletta Júnior

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direitos, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.


Bruno Maroni

Bruno Maroni

jundiaiense, casado com a Larissa. É pastor-teólogo, revisor, professor e jornalista cultural involuntário. Fuçador musical, apaixonado por leitura, café com os amigos (ou chocolate gelado!), pizzas, séries e tartarugas aquáticas.


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Disponível em: https://www.jstor.org/stable/24237505 Versão de Phos Hilarion utilizada: http://www.ecclesia.com.br/biblioteca/liturgia/phos_illaron.html Uma playlist com várias performances do hino: https://open.spotify.com/playlist/3tW17YmKaw4NyyjsBqim07 Performance em grego: https://www.youtube.com/watch?v=fd7kcQaDbKg
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(O peso da glória, p. 162, grifo meu). Infelizmente, estamos confundindo as coisas. Em alguns modelos de congregação, como as megaigrejas, a liturgia do culto tem dado lugar à um apelo emocional para gerar experiências sensoriais ao participante, e não como um momento de adoração em um Corpo. Ao invés do autoesquecimento, o preletor e o músico incutem no participante do culto um senso de importância como se todo aquele momento existisse para que ele fosse satisfeito emocionalmente. A busca pelo transe coletivo é confundida com a manifestação do Espírito. O olhar não é mais para Cristo, mas para o homem. E nem sempre isso é feito com palavras antropocêntricas, mas por meio das transações do mercado das emoções. Às vezes, a vitória que se proclama é um incentivo emocional, e não espiritual. A “cura” declarada é um paliativo, uma anestesia que gera bem-estar momentâneo. 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A perda da identidade individual é espantosa: é de se estranhar um corpo somente com iguais. Como diz Tish Warren em Liturgia do Ordinário: “Ao invés do foco no culto estar no que nos nutre, a saber, a Palavra e o sacramento, o foco se tornou no que vende: empolgação, aventura, uma experiência espiritual calorosa e impressionante. A experiência individual da adoração, uma noção subjetiva do seu encontro com Deus se tornou a peça central da vida cristã.” (p. 157, e-book). Capitalizar emoções em busca de lucro não poderia ser mais distante da verdadeira e pura experiência espiritual em igreja. Há alguns anos teólogos vêm analisando como evangélicos brasileiros caíram no conto da similaridade entre teologia coaching e a experiência religiosa, sendo entremeada em muitas congregações como um algo só. 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