O nascimento do sujeito do desempenho

Marco Antônio Chiodi Jr.

Marco Antônio Chiodi Jr.

1 jul. de 2022

|

5 minutos de leitura

Recentemente finalizei a leitura do livro Sociedade do Cansaço, do autor sul-coreano Byung-Chul Han. Li, pois diversos amigos comentaram que possuía um conteúdo fantástico, mesmo em tão poucas páginas – 120 páginas, para ser mais exato. De fato, sinto que minha compreensão da sociedade atual e de seus ritmos foi enriquecida, passei a gostar ainda menos dela – brincadeira.

Resumidamente, o livro diz que cada época tem algum tipo de doença característica. Por exemplo, houve a era das doenças bacteriológicas e virais; agora, segundo o autor, o mundo é marcado pelas doenças neuronais, tais como Burnout e depressão e, como aponta Han, são causadas pelo excesso de positividade. A pós-modernidade não possui mais a negatividade daquilo que é o outro, algo estranho.

A globalização (não uso essa palavra desde o ensino médio) acabou por deixar o mundo homogêneo. Em muitos casos, ainda há o estranho, mas na forma de um produto de consumo exótico. Não há mais aquela reação imunológica da dialética da negatividade, onde devíamos negar o estranho para sobreviver. Somos uma sociedade que não conhece barreiras. O engraçado de tudo isso é que eu lembro de brincar com o meu antigo professor de geografia, o Jefinho, dizendo que a globalização era como o slogan daquela operadora de celular: viver sem fronteiras.

Como sou engenheiro, preciso usar meu linguajar próprio, porque gastei o meu vocabulário de palavras complicadas no parágrafo anterior. Sofremos de um feedback positivo, nossos pólos foram alocados no semi-plano positivo no plano complexo (se não entendeu, então você precisa estudar a teoria de controle clássico). Viver dessa forma, onde somos, todos os dias, impulsionados para frente sem nunca parar, buscando sempre “a melhor versão de nós mesmos”, nos levará a uma crise de depressão justamente da descoberta de nossos limites ou, pior ainda, na descoberta de nossos erros.

Byung-Chul Han comenta também que computadores são máquinas da positividade: elas não podem parar para fazer outra coisa ou simplesmente não fazer nada; nós, meros seres humanos, não somos assim. Não fomos projetados para trabalhar e viver dessa forma. Talvez, devêssemos nos atentar ao instruction set dos processadores e verificar a existência do comando no operation, ou seja, até os melhores processadores, feitos para ter o melhor desempenho possível, têm comandos para não fazer absolutamente nada e que, por sinal, são muito utilizados.

Durante o livro, o autor designa a sociedade positiva como a “sociedade do desempenho”. Ela ganha este nome pois seu objetivo é a maximização da produção. Os indivíduos que a compõem são chamados de “sujeitos do desempenho”, ou seja, pessoas que trazem essa cultura de produção.


"Como dizia minha mãe, mente vazia é oficina do diabo. No entanto, quão diabólicas são as consequência de se ter a mente constantemente preenchida!"


Quando finalizei a leitura, fiquei refletindo sobre o significado de tudo isso em minha vida; foi então que percebi o quanto eu trazia, dentro de mim, a cultura do desempenho. Quando jovem, era incentivado a nunca ficar parado. Minha agenda ficava totalmente preenchida até tarde da noite. Dentre as atividades, havia cursos de informática, idiomas – nos quais sempre fui uma negação –, trabalhos voluntários, atividades escolares e exercícios físicos. Além disso, era incentivado a ir bem nos estudos para passar em uma boa universidade, de preferência uma federal. Já com mais idade e finalizando a graduação em engenharia eletrônica, comecei um mestrado, enquanto também trabalhava meio período e fazia o TCC. Como dizia minha mãe, mente vazia é oficina do diabo. No entanto, quão diabólicas são as consequência de se ter a mente constantemente preenchida!

Atualmente, a situação parece ter piorado. Os pais querem que seus filhos sejam alfabetizados cada vez mais cedo; além disso, não basta apenas aprender bem o idioma pátrio e saber inglês como na minha época (mesmo eu tendo falhado na parte do inglês), há a necessidade de estudar espanhol, alemão, mandarim (para usar o Android do Xiaomi no original), coreano (se for fã do BTS) e japonês (para ver animes sem legenda).

Há também o agravante da tecnologia que já faz parte da vida dos mais novos. Eles estão crescendo sempre conectados e isso é um problema! Estar sempre conectado implica abrir mão daquela negatividade do parar. A máquina humana multitarefas interrompe uma atividade numa falsa negatividade, pois ela para apenas para realizar outra tarefa, sendo isso um processo preemptivo, cíclico e eterno.

Talvez você tenha ficado confuso com a minha última afirmação. Na engenharia, preempção é o ato do processador parar uma tarefa, salvar seu contexto e então escalonar a próxima, por isso chamei o processo de preemptivo. Ele também é cíclico, porque as tarefas são sempre chamadas novamente. Uma pessoa que manda mensagens no Whatsapp, vê o Facebook, conversa com a mãe e assiste TV ao mesmo tempo, na verdade, está escalonando continuamente estas quatro tarefas em seu kernel orgânico. Ela vai da tarefa 1 para a 2; da 2 para a 3; da 3 para a 4 e, por fim, da 4 para a 1 novamente; tudo isso para voltar a rotina de escalonamento. Finalmente, é um processo eterno, pois não há fim para o tempo conectado.

Ao que parece, o sujeito do desempenho tem surgido cada dia mais cedo. Na minha experiência de vida, me tornei esse sujeito por volta dos 12 anos. Os conhecidos que têm filhos já têm transformado suas crianças por volta dos 10. Daqui alguns anos, os recém-nascidos já não deverão mais ter babás, mas coaches para ensiná-los o caminho onde poderão desempenhar ao máximo seus dons.

G. K. Chesterton disse que, um dia, teríamos que demonstrar para o mundo que a grama é verde. De fato, algumas obviedades foram totalmente descartadas, inclusive, até as máquinas positivas pifam quando não têm o descanso da manutenção.

Sociedade do cansaço

Byung-Chul Han

Sociedade do cansaço

R$31,50

Original: Escrito por Marco Antônio Chiodi Jr.

Imagem de Unsplash

© The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados.

Revisão: Maurício Avoletta Júnior

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direitos, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.


Marco Antônio Chiodi Jr.

Marco Antônio Chiodi Jr.

Engenheiro e aspirante a escritor. É casado com a Gabriele e um dos fundadores do @projetoculturepub


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Ansiedade
Em Suma (Transcrição) - 3. O que Calvino diria a um suicida? Bem, nunca é fácil especular o que uma pessoa morta há mais de 400 anos falaria. E fica pior ainda quanto tratamos de um assunto tão delicado e complexo quanto o suicídio, com tantas dimensões médicas e psicológicas envolvidas, que um teólogo com certeza não pode lidar sozinho. E, para completar, será que vale a pena se aconselhar com os mortos? Com esse morto eu acho que sim. Para quem não sabe, Calvino é reconhecido como um dos maiores teólogos do século 16, sendo um dos maiores responsáveis pela consolidação da Reforma protestante. Mas não é o currículo teológico desse francês nascido em 1509 que importa aqui. De fato, ele escreveu muito na sua curta vida de 54 anos. Muita gente esquece que antes de escritor, político ou mesmo acadêmico, João Calvino era pastor. A maior parte do seu tempo envolvia não escrever livros grandes para discutir com gente grande, mas cuidar dos pequeninos de Genebra. Inclusive, uma das principais modificações promovidas por Calvino foi um aconselhamento pastoral mais próximo ao povo, levando a Palavra de Deus para sua vida cotidiana. O que Calvino pregou sobre o suicídio, então? Sendo esse assunto um tabu naquele tempo (e isso não parece ter mudado muito), temos pouco material sobrevivente. Para ser mais exato, temos dois sermões dele sobre suicídios no Antigo Testamento, o de Aitofel, conselheiro de Absalão, e o de Saul. O propósito de Calvino nesses sermões é mostrar como o suicídio é um pecado grave, ele o chama de “o pior crime”. Agora, calma, eu sei que isso não parece a forma mais inteligente de aconselhar um suicida, mas ouça o raciocínio completo. A razão básica para ser pecado é que, se Deus deu nossa vida, só ele pode tirá-la. Ele utiliza uma antiga comparação, herdada de Pitágoras, com um soldado em serviço: assim como um soldado não pode desertar o seu posto durante a vigília, não importando quão difícil a sua posição fique e quão escuro pareça tudo ao seu redor, até que o seu comandante o libere, da mesma forma, o justo deve esperar pelo Senhor. Ele vai livrá-lo na hora certa. Calvino alguma vez já tenha falado algo para um suicida? E a surpresa é que sim. Em 23 de janeiro de 1545, Calvino enviou uma carta às autoridades civis de Genebra. Em uma espécie de boletim de ocorrência, ele explica como conversou no dia anterior com um homem chamado Jean Vanchat, que tinha se esfaqueado numa tentativa de suicídio e estava morrendo lentamente por causa das feridas. Veja como Calvino relata o encontro: “Eu lhe perguntei o que levou ele a se ferir. Ele me disse que estava sofrendo muito. Eu lhe mostrei de diversas formas como o diabo lhe tinha seduzido e desviado. 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Guilherme Cordeiro
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Ansiedade
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Não podemos obrigar as pessoas a ter amizades ou se relacionar amorosamente com ansiosos ou depressivos. Os desafios podem ser maiores, a paciência e percepção acabam sendo sempre necessárias, mas é preciso enfatizar que pessoas com transtornos psicológicos não são “escolhas ruins” ou “opções desgastantes”. São pessoas com qualidades diversas, virtudes a oferecer, com sonhos e desejos. São perceptivos, sensíveis e empáticos. Ansiosos e depressivos também querem e precisam ser amados. O amor deve ser intencional. Eu posso amar alguém mais vulnerável emocionalmente, compreender essa fragilidade, assim como minha própria fraqueza será exposta em algum momento. Ansiosos e depressivos podem falhar em muitas esferas, mas são vitoriosos em aspectos que outros não são. Se o amor é compromisso, temos que estar prontos a nos comprometer em servir ao outro, mesmo que haja esforço, e sempre há. 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Vivendo o extraordinário no ordinário Como cristãos, sabemos que fomos chamados para viver como Cristo e sermos sal na terra. Deus colocou o desejo de servir e criar em nossas almas. Essa paixão plantada em nossos corações pelo mundo e pela obra de Deus nos leva a muitos lugares - criamos toda sorte de novas tecnologias e desenvolvemos ferramentas que conectam pessoas que nunca se encontrariam em outros tempos. Desejamos participar dessa missão de transformar o mundo e radicalmente fazer a diferença, mas a maioria de nós viverá conquistas menos revolucionárias. Eu, você e muitos outros, não deixaremos uma marca. Para alguns essa participação na missão de transformar o mundo significa curar uma doença rara e desenvolver um software importante. Para outros, quer dizer viver o comum. Há uma ideia no meio gospel que vincula uma vida de frutos a mudanças radicais na sociedade e cultura em que estamos inseridos. Se somos realmente seguidores de Cristo, então nossa vida precisa gerar impacto e esse choque precisa virar o mundo de cabeça pra baixo – ou pelo menos o mundo que você está agora, como sua cidade, sua comunidade local, seu perfil de Instagram. Esse ideal pode ser alimentado pelo nosso próprio ego, que almeja ser visto e amado, pela leitura errada do chamado de Deus para a nossa vida ou pelo consumo de um Evangelho barato, onde Deus olha para os seus filhos e prefere uns a outros baseando-se na troca: eu te dou salvação, você me dá impacto. Essa abordagem da vida cristã de uma espiritualidade heroica tem data de validade. Você se esgotará de todas as formas possíveis na busca por vencer o mundo, quando na verdade, ele já foi vencido. Em seu livro Liturgia do Ordinário, Tish H. Warren afirma que a melhor forma de servir ao nosso Deus e mudar as percepções sociais é caminhar com fidelidade, momento a momento, na ordinária vida comum. Quando cozinhamos uma sopa, quando ligamos para uma amiga, quando escolhemos o perdão e a mansidão. É por meio da rotina e da entrega dos nossos corações ao Senhor, que podemos radicalmente transformar o mundo – transformando a nós mesmos. A nova vida em que somos batizados é vivida em dias, horas e minutos. Deus está nos formando como novas pessoas. E o lugar dessa formação são os pequenos momentos do hoje. Para explicar por que é necessário viver o ordinário para cumprir nosso propósito, Tish usa a liturgia como metáfora. Liturgia é a ordem e a forma com que se realiza uma celebração religiosa, ou melhor, nosso culto. É relacionando a liturgia do culto às devoções cotidianas que realizamos em simples atos da rotina, que a autora revela a importância do simples ato de viver, com todo nosso coração, para Deus. Assim como James K. A. Smith, em Você é aquilo que você ama, Warren nos mostra como os nossos hábitos são práticas formativas para a nossa identidade e espiritualidade. Dessa forma, se estabelecermos liturgias como hábitos, formaremos nosso caráter enquanto praticamos uma constante reverência ao Senhor. A nossa identidade, o motivo para que vivemos, para onde estamos caminhando, tudo isso é traçado do momento em que acordamos até quando nos deitamos. É nos detalhes, na fragilidade, que avançamos na estrada que sussurra nosso nome. Não precisamos conquistar nosso eu, ele é dado de graça por uma realidade maravilhosa e piedosa que nos sustenta, nos ampara e que nos guia nas horas do dia. Nosso corpo, nossa mente e nosso espírito são instrumentos de adoração. Como preparamos o café da manhã para quem amamos, como nos exercitamos, como vamos à terapia, como adoramos no culto de domingo com nossos irmãos: tudo isso é para Deus. A forma como lidamos com nossa vida retrata o que entendemos sobre quem Cristo é. Pare, olhe para o seu coração e para os seus dias. Você está vivendo para quem? O que você tem amado? Quais são os seus hábitos ordinários que, neste momento, estão te moldando? Precisamos realinhar o nosso coração e, intencionalmente, morar no hoje, e servir a Deus, como o Carpinteiro serviu. Que Deus nos ajude a viver o ordinário de forma extraordinária.
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